Carnaval: Desvendando as Origens Pagãs e o Chamado à Conversão Quaresmal

Imagem artística da palavra "CARNAVAL" escrita com letras tridimensionais coloridas em tons de vermelho, azul, rosa, laranja e bege. As letras C e L são decoradas com penas ornamentais coloridas e elementos circulares que remetem a máscaras carnavalescas. O fundo é azul sólido, criando contraste com as letras vibrantes. A composição visual representa a festividade do carnaval enquanto ilustra artigo sobre suas origens históricas pagãs.

Estamos às vésperas de dois momentos que, embora radicalmente opostos em essência, marcam profundamente o calendário brasileiro: o Carnaval e a Quaresma. Enquanto milhões se preparam para dias de festa e excesso, a Igreja Católica nos convida a um tempo de conversão, jejum e preparação para a Páscoa. Mas você sabe de onde realmente vem o Carnaval? A Igreja Católica o criou, como alegam alguns?

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Neste artigo, vamos desvendar as verdadeiras origens desta festividade, esclarecer equívocos históricos e compreender por que a Quaresma se apresenta como antídoto necessário para nossa alma.

Desmentindo um Equívoco Histórico

Antes de mergulharmos na história, é fundamental esclarecer uma acusação frequente: o Carnaval NÃO foi criado pela Igreja Católica. Trata-se de uma festa de origem pagã que a Igreja, em determinado momento histórico, tolerou em contextos específicos, mas nunca instituiu ou promoveu como festividade litúrgica.

Diferentemente das festas cristãs autênticas – Páscoa, Natal, Pentecostes, solenidades marianas – o Carnaval não consta no calendário litúrgico oficial e nunca foi sacramento, celebração sacramental ou festa de preceito. A Igreja é Mãe e Mestra, não inventora de depravações. As festas verdadeiramente católicas celebram mistérios divinos: a Encarnação do Verbo, a Ressurreição de Cristo, a vinda do Espírito Santo. O Carnaval, pelo contrário, celebra a carne em seu sentido mais decaído.

Atribuir sua criação à Igreja Católica é desconhecer tanto a história quanto a natureza da fé cristã.

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Eu Costumava Acreditar que a Igreja Criou o Carnaval. Até Descobrir a Verdade Chocante.

As Verdadeiras Origens: Festas Pagãs Pré-Cristãs

O Carnaval tem raízes profundas nas festividades pagãs do mundo greco-romano, celebradas séculos antes do nascimento de Cristo:

As Saturnálias romanas (em honra ao deus Saturno) eram marcadas pela inversão completa da ordem social: escravos comandavam senhores, a embriaguez era incentivada, a imoralidade sexual era praticada abertamente. Realizadas em dezembro, estas festas duravam cerca de uma semana.

As Lupercais (fevereiro) eram celebrações de fertilidade com rituais obscenos, sacrifícios animais e práticas orgíacas em honra ao deus Fauno.

Os Bacanais (culto a Baco/Dionísio, deus do vinho) eram famosos por suas orgias, embriaguez ritualística e completa libertinagem moral.

Essas festividades tinham características comuns: culto aos prazeres carnais, quebra de normas morais, embriaguez coletiva, sensualidade exacerbada e, frequentemente, elementos de inversão social temporária (pobres se vestiam como ricos, homens como mulheres, etc.).

A evidência é clara: estas festas existiam muito antes do cristianismo e eram parte integrante do paganismo politeísta que a Igreja combateu desde seu nascimento.

A Relação da Igreja com o Carnaval: Tolerância, Não Criação

Quando o cristianismo se expandiu pelo Império Romano e, posteriormente, pela Europa medieval, encontrou sociedades impregnadas de costumes pagãos. A conversão era um processo gradual, e alguns hábitos culturais persistiram mesmo após o batismo das nações.

A Igreja adotou diferentes estratégias pastorais:

Substituição: Onde possível, substituiu festas pagãs por celebrações cristãs (o Natal no lugar das festas do solstício, por exemplo).

Ressignificação: Tentou dar sentido cristão a algumas práticas (festas juninas cristianizando celebrações de colheita).

Delimitação: Em casos como o Carnaval, estabeleceu limites temporais – tolerando três dias de festividade antes da Quaresma como “válvula de escape” controlada, na esperança de que isso facilitasse a observância posterior dos 40 dias de penitência.

Esta última estratégia foi uma tentativa de administrar o mal menor, não uma aprovação ou criação intencional. É importante compreender: a Igreja estava lidando com sociedades recém-convertidas, onde eliminar completamente costumes arraigados era pastoralmente impraticável.

O termo “Carnaval” possivelmente vem de “carne vale” (adeus à carne) ou “carnem levare” (retirar a carne), referindo-se ao período que antecedia a abstinência quaresmal. Mesmo na etimologia, portanto, o Carnaval não é celebração em si, mas despedida antes da penitência.

Crucial entender: tolerar contextualmente não é o mesmo que criar ou aprovar. A Igreja nunca incluiu o Carnaval em sua liturgia, nunca o declarou festa católica, nunca o revestiu de caráter sacramental.

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O Magistério Sempre Condenou os Excessos

Ao longo da história, papas, santos e doutores da Igreja consistentemente condenaram as imoralidades carnavalescas:

Santo Agostinho (354-430) escreveu contra as festas licenciosas herdadas do paganismo, alertando os cristãos sobre a incompatibilidade entre Cristo e Baco.

São João Crisóstomo (349-407) pregou vigorosamente contra espetáculos imorais e festividades que corrompiam os costumes cristãos.

São Carlos Borromeu (1538-1584), arcebispo de Milão, combateu energicamente os excessos carnavalescos em sua diocese, proibindo celebrações escandalosas.

Papas diversos, ao longo dos séculos, emitiram documentos condenando a imoralidade pública, ainda que nem sempre mencionassem o Carnaval nominalmente (pois não era festa eclesiástica digna de menção oficial).

O Catecismo da Igreja Católica não menciona o Carnaval, mas é claro quanto aos pecados frequentemente associados a ele: “A luxúria é um desejo desordenado ou um gozo desregrado do prazer venéreo” (CIC 2351). “A embriaguez e a busca de prazer são reprovadas” (cf. CIC 2290).

A Transformação Progressiva: Do Excesso ao Culto Satânico

Manifestação moderna do carnaval brasileiro mostrando evolução das festividades carnavalescas originais

Se nos séculos passados o Carnaval europeu era uma festa excessiva mas relativamente contida (três dias, com brincadeiras, máscaras, alguma bebida e folguedos), o que vemos hoje em muitos lugares ultrapassa em muito qualquer “válvula de escape” cultural.

A comercialização transformou dias em semanas de festividade. No Brasil, o Carnaval pode começar semanas antes da data oficial, com ensaios, pré-carnavais e blocos incessantes.

A sexualização explícita atingiu níveis inimagináveis: fantasias que mal cobrem o corpo, coreografias obscenas transmitidas nacionalmente, letras de músicas que exaltam adultério, prostituição e todo tipo de imoralidade.

A banalização da embriaguez e drogas: o que deveria ser excesso pontual tornou-se norma aceita e até incentivada, com consequências trágicas em violência, acidentes e mortes.

Elementos anticristãos explícitos: nos últimos anos, temos visto desfiles com símbolos abertamente satânicos, zombaria de símbolos cristãos, performances que glorificam o ocultismo. Carros alegóricos com imagens demoníacas, representações que invertem e profanam o sagrado, letras que blasfemam contra Deus – isso não é mais mero excesso humano, mas desafio espiritual direto.

São Paulo nos adverte: “As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem… embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticam não herdarão o Reino de Deus” (Gálatas 5,19-21).

O Carnaval contemporâneo, em muitas de suas manifestações, tornou-se verdadeiro culto a céu aberto aos vícios capitais: luxúria, gula, soberba, ira (nas brigas e violência), preguiça (no abandono de responsabilidades), avareza (na exploração comercial) e inveja (nas disputas por visibilidade).

A Posição da Igreja Hoje

A Igreja Católica mantém posição clara, ainda que pastoral:

Não há pecado em alegria legítima: festas, música, dança, celebração comunitária são bens humanos que a Igreja valoriza. Festas de santos são repletas de alegria genuína.

Há pecado na libertinagem: quando a “festa” se torna ocasião próxima de pecado mortal – embriaguez, fornicação, escândalo público – o cristão deve afastar-se.

Vigilância neste período: muitas dioceses recomendam oração intensificada, adoração eucarística e retiros espirituais durante o Carnaval, como antídoto espiritual ao que ocorre nas ruas.

Testemunho profético: alguns católicos escolhem fazer “Carnaval de Cristo”, com evangelização nas ruas, distribuição de santinhos, missas e adoração pública – presença cristã em meio ao caos.

O cristão não é chamado a ser puritano que rejeita toda alegria, mas tampouco pode pacificar-se com a imoralidade pública. “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém” (1 Coríntios 6,12).

Da Quarta-Feira de Cinzas à Quaresma: O Antídoto Divino

E eis que, logo após o ápice do Carnaval, a Igreja nos apresenta a Quarta-feira de Cinzas – contraste mais radical impossível imaginar.

Enquanto o Carnaval celebra a carne, as cinzas nos lembram: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gênesis 3,19).

Enquanto o mundo exalta o prazer efêmero, a Quaresma nos convida: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1,15).

A Quaresma é tempo litúrgico oficial, instituído pela própria Igreja desde os primeiros séculos, para preparar os fiéis à Páscoa do Senhor. Não é invenção humana, mas tempo sagrado de 40 dias (recordando os 40 dias de Cristo no deserto) dedicados a:

  • Jejum e abstinência: domínio do corpo sobre as paixões
  • Oração intensificada: fortalecimento da vida espiritual
  • Esmola e caridade: conversão concreta em obras de amor
  • Confissão sacramental: purificação da alma pelo perdão divino
  • Meditação da Paixão de Cristo: contemplação do amor que nos salva

A Quaresma não é tristeza, mas medicina. Não é negação da alegria, mas busca da Alegria verdadeira que é Cristo.

O profeta Joel, cuja leitura abre a Quaresma, proclama: “Convertei-vos a mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes” (Joel 2,12-13).


Enriquecendo seus Conhecimentos

Aprofundando a fé à luz da Sagrada Escritura e da Tradição cristã

A fé cristã cresce quando é alimentada pela Palavra de Deus, pelo ensinamento da Igreja e pela reflexão séria. Para quem deseja aprofundar este tema com fidelidade à Sagrada Escritura e ao Magistério, indico as leituras abaixo.

“Festas e Civilizações” – Jean Duvignaud

Por que este livro neste tema:
A obra analisa como as festas revelam a estrutura social e cultural das civilizações, mostrando de que forma os rituais coletivos expressam valores, crenças e identidades. Duvignaud aprofunda a dimensão simbólica das celebrações, conectando-as ao desenvolvimento histórico e espiritual das comunidades.
O que você ganha com esta leitura:
Uma compreensão mais profunda da função espiritual e social das festas como expressão da fé e da cultura.
👉 Indicado para quem deseja compreender o sentido formativo e espiritual das celebrações coletivas.

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“Confissões” – Santo Agostinho

Por que este livro neste tema:
Nesta obra, Agostinho expõe sua busca interior pela verdade e pela graça divina, revelando como a experiência pessoal de conversão ilumina o entendimento da relação entre fé, razão e vida cotidiana. O texto aprofunda o tema ao mostrar a dimensão espiritual da luta humana diante de Deus.
O que você ganha com esta leitura:
Um testemunho profundo que fortalece a vida espiritual e inspira a perseverança na fé.
👉 Indicado para quem deseja aprofundar a experiência da conversão e do encontro pessoal com Deus.

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“Cidade de Deus” – Santo Agostinho

Por que este livro neste tema:
Agostinho mostra como as festas e cultos pagãos romanos não conduzem à verdadeira paz, revelando sua incompatibilidade com a fé cristã. Nos livros VI a X, ele desmonta a ideia de que os deuses e suas celebrações poderiam garantir prosperidade, defendendo que somente em Deus se encontra sentido e salvação.
O que você ganha com esta leitura:
Uma visão profunda sobre a relação entre fé e cultura, fortalecendo a compreensão cristã diante das tradições humanas.
👉 Indicado para quem deseja discernir o valor espiritual das práticas culturais e compreender a verdadeira paz em Deus.

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Conclusão: Dois Caminhos, Uma Escolha

Estamos diante de dois caminhos radicalmente opostos:

O caminho do Carnaval: excesso, embriaguez, luxúria, esquecimento de Deus, celebração da carne que perece, ilusão de liberdade que escraviza, alegria artificial que termina em vazio e ressaca – física e espiritual.

O caminho da Quaresma: conversão, oração, domínio próprio, memória de Deus, preparação para a Páscoa eterna, liberdade verdadeira que vem do Espírito, alegria profunda que nasce da união com Cristo.

Como católicos, nossa escolha deve ser clara. Não porque sejamos “melhores” que outros, mas porque conhecemos a Verdade que liberta. Não por puritanismo, mas por amor a Cristo que morreu para nos libertar do pecado.

Nestes dias, enquanto o mundo se entrega à festa da carne, a Igreja nos convida à festa do espírito. Enquanto multidões buscam esquecer-se de si mesmas na embriaguez, somos chamados a encontrar-nos em Cristo na sobriedade. Enquanto muitos profanam o sagrado, somos convocados a santificar o profano.

A Quaresma se aproxima como tempo de graça, oportunidade divina de recomeço, período privilegiado de transformação. No próximo artigo, aprofundaremos como viver plenamente este tempo santo, quais práticas concretas adotar, como fazer desta Quaresma um verdadeiro deserto fecundo onde o Espírito nos forme à imagem de Cristo.

Que nestes dias, em meio ao barulho do mundo, saibamos ouvir o sussurro de Deus: “Vem ao deserto, vem a Mim, e Eu curarei teu coração”.

“Criai em mim, ó Deus, um coração puro, e renovai em meu interior um espírito firme.” (Salmo 51,12)

Para reflexão pessoal:

  1. Como tenho me posicionado diante do Carnaval e suas manifestações?
  2. Estou preparado para iniciar a Quaresma com seriedade e compromisso?
  3. Que conversão específica Deus está me pedindo neste tempo?
  4. Como posso ser luz profética em meio à escuridão cultural?

Acompanhe o próximo artigo da série: “Quaresma: 40 Dias que Transformam a Alma – Guia Prático para uma Quaresma Autêntica”

Raízes Bíblia – Enraizados na Verdade, Crescendo em Cristo

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